Todas as coisas, todas as formas, todos os sons.

Todas as coisas, todas as formas, todos os sons.

domingo, julho 25

O X- do Man

Eu gosto dos X-man. Eu sempre gostei dos X-man. Tudo aquilo me fazia pensar no sentido da vida, que não precisa ter um sentido em si, só uma busca incansável por tal. Quando criança, eu e meu primo brincávamos de X-man, íamos para o quintal, onde escolhíamos nosso poder mutante, e ali guerreávamos durante horas contra os nossos vilões, e isso era algo fantástico. Nunca tive os quadrinhos dos x-man, minha mãe nunca achou que quadrinhos fossem algo de menina. Ela ainda não acha, mas não tendo os quadrinhos, eu tinha meu primo, e ele tinha uma estante, que por sua vez, saciava toda minha sede por super-heróis. Lia-os sempre que podia, imaginava coisas alem das paginas, vivia as paginas, invejava as paginas, e brincava com meu primo no quintal de casa. Quando somos criança não temos duvidas, a não ser aquelas questões de pivete que nunca poderão ser confundidas ou substituídas, e as minhas duvidas de pivete eram tão normais quanto as de qualquer outra criatura recente do mundo. Quando nos tornamos adolescentes e adultos, ficamos chatos e sem duvidas que mereçam ser respondidas por um estranho, e foi a duvida dos x-man que primeiro me abordou no mundo desconhecido dos hormônios. Aquelas pessoas geneticamente singulares que lutavam por algo, por alguém, ou contra as coisas, me despertaram a duvida do sentido de tudo. O sentido dos x-men me perseguiu por todos os lugares. Na escola, no cinema, nos parques, nas mesas... Em qualquer lugar aquelas pessoas me vinham a cabeça e me faziam pensar o porquê deles existirem, que era algo alem da vontade de um humano por algo no papel, afinal, eles eram coloridos. Um lugar no mundo, foi isso que me pareceu, lutar contra os humanos ou contra os próprios mutantes. Me pareceu isso, uma busca pelo seu lugar no mundo, se descobrir no meio de todos, ter paz. E isso foi ficando cada vez mais inconstante e liquido, afinal, os poderes ainda não eram explicados, e isso era a essência de tudo, era a essência das minhas brincadeiras, era a essência da prateleira do meu primo, era a essência do mundo. Procurei outros sentidos, coisas mais complexas. Quando se é adolescente, tudo é muito complexo e idiota. Não encontrei. Matei a teoria da busca, e parei de ler os quadrinhos da prateleira do meu primo, pois aquilo agora me torturava. Você abandona as coisas assim como abandona os jogos não finalizados, que te cansam e te fazem perder dias de aula e horas de sonhos, até que você percebe que já chega, e que você tem que parar. Eu parei. Joguei outros jogos, e os completei. Conheci outros livros, e os entendi. Tive espinhas, e as estourei contra as ordens de minha mãe. Fui apresentada a bebida, e me embriaguei. Tive ressacas de alcool, de letras, de certezas, de amor, e depois de tantas dores de cabeça finalmente procurei os jogos não acabados, e os completei. Já estava então na hora de voltar a prateleira de meu primo. Junto a todos os quadrinhos que a prateleira fielmente guardou por todos aqueles anos, percebi que se passa muito tempo  da vida lendo quadrinhos aos quais você nunca entendeu, e que você deixou lá por não digerir, e ficar cansado. Mas eu entendi. Aquela mente mutante modificada a tantos anos atrás finalmente encontrou a assinatura em seu adamantium. Eu havia conseguido penetrar a mente dos quadrinhos e tinha ali, na minha frente, a resposta de tudo. Os x-man eram imperfeitos e buscavam por seu eu dentro de si, era uma busca descontrolada e violenta pela sua essência, uma busca cheia de tempestades e paredes, pela coisa mais profunda em uma célula mutante. Os x-man estavam prontos, coloridos e permanentes em suas paginas, juntas em um HQ, em cima da prateleira do meu primo. Eles eram x-man. Todos eram mutantes. Tudo era uma célula. X-man.

segunda-feira, julho 19

Da Varanda.

           Eles eram felizes. Pessoas que sorriem apenas por estarem juntas, que seguem os pássaros e caminham com o vento. Era assim, a vida para eles era fácil, na verdade, é fácil para todos, mas isso é um ponto de vista, e o ponto de vista deles era totalmente livre. Palavras não eram cobiçadas, quando se é como eles eram, só se precisa da sinceridade do olhar, daqueles olhares tão sinceros e apaixonados que só se via neles, era algo sincero e apaixonado. Gostavam da varanda, da vista para o coqueiro velho que balançava suas folhas como a moça bonita da praia balança seu leve a avassalador cabelo. Aquele coqueiro fora cartão postal de suas viagens, de seus sonhos, de suas tardes de amor no quarto, onde havia uma janela, que também admirava o coqueiro, que também estava em seus sorrisos mais felizes. O coqueiro que era tão bonito para eles. Não tinham planos, eles são tão inúteis quanto uma mesa de mármore. Eles tinham sonhos, e naqueles dias sonhavam com o espaço, e com os pequenos planetas que ilustravam as folhas do livro do príncipe pequenino. Eles mereciam publico, mereciam leitores, mas eles só tinham amigos, que eram tão felizes por poderem estar entre aquela paz que só eles dois conseguiam transmitir. Ela recebia flores, ele recebia bilhetes. Ele sempre a presenteava com lindos presentes. Os textos dela eram guardados na gaveta dele, e os seus sorrisos eram o valor mais alto que eles podiam pagar por algo. Ah, como se é feliz quando se pode estar ao lado do outro, felicidade que não se iguala a nenhuma outra, ou até se compara, mas não é algo poético de se fazer, e na vida daqueles dois, a poesia era a doutrina seguida com fervor, poetas mortos eram Cristo, e Deus. Bem, Deus é sempre seu escritor predileto. Para eles dois, o mesmo Deus. Dois. Eram apenas dois, que não queriam lugar melhor, mas mereciam, mereciam qualquer olhar melhor do que esses que nos, na condição de julgadores desprezáveis temos. Eles mereciam o infinito, mas não era assim que gostavam, eram infinitos, mais estavam no finito do mundo, o finito tão revoltante e assustador a que todos os mortais são destinados. E assim como tudo, e como todos eles eram feitos com a essência dessa verdade, onde tudo passa, e quando digo passar, não é ir embora e se perder de vista, não, o passar do mundo é o guardar da gramática, do corpo é taxado de memoria, e o passar deles também foi assim. Passou. Tão como tudo, tão como todos e como se esperava, o infinito caiu no mundo da memoria, e se tornou memoria como o primeiro banho de chuva, ou seu primeiro dente que tanto te incomodou até que caísse, ou que fosse arrancado por mãos finitas. Passou. O coqueiro permaneceu ali por muitos e muitos anos, até que foi arrancado, sem causas naturais, para dar lugar ao balanço do parque. O coqueiro estava guardado na memoria e na gaveta, assim como tudo, assim como nos. Eles eram felizes.

quarta-feira, julho 7

De nome e Essencia

Silencio. Gosto do silencio. Ele sempre esta presente, e sempre foi desejado por mim. Gosto do silencio, aproveito cada momento com ele, gosto dos sons que ele me trás. Sons diferentes, sons que chamam por meus ouvidos e alimenta minha alma, alma de cachorro. Viciada em silencio, o procuro, sempre, mesmo quando, em certas ocasiões, ele foge de mim, o que me fez questionar se ele me temeria. Mas por que o silencio me temeria? Sou tão somente uma alma, dentro de um frágil corpo, tão sem rumo quanto os outros, que talvez busquem por ele em noites frias e escuras. Sou viciada no silencio. Já me perguntei sobre isso, e busquei sons, em silencio, que pudessem explicar essa necessidade, esse caso estranho entre alma e vazio. Mas não existe resposta, ou eu não achei, ou não entendi, ou não quis entender, o que importa é que ainda busco pelo silencio, seduzida por seus olhos, pelos sons que ele me trará. Procuro pelo silencio. Um dia, talvez, ele ache um cantinho em minha alma canina, e fique por lá. Seria bom ter um pouco de silencio dentro de minha alma, fugir dos sons do mundo, fugir dos sons felinos que tanto me atormenta e me fazem buscar por silencio, e nesse momento eu não o encontro, e fico quieta, atordoada ao ouvir tantos gatos, tantos sons mudos a minha alma de cão. Me perturba. Me doí. Procuro pelo silencio. Não preciso de sua rápida acomodação em mim, sei onde encontra-lo, sempre, ele é quem fogem e eu o procuro mais uma vez, e isso se segue, se segue, se segue... Eu gosto do silencio, gosto das cores que ele sempre carrega consigo, e que para mim, sempre foram coloridas, variadas como os sons, cores hipnotizastes e mágicas, elas encostam em minha alma, se unem aos sons, e formo meu escudo. Eu fico livre dos sons, dos gatos, das sirenes, das explosões, dos chamados, dos tormentos. A cor e os sons me deixam os sorrisos, os sem idade nem género, apenas sorrisos, manifestações de almas alegres em corpos alegres. Pessoas alegres. Vidas alegres. sorrisos vestiram minha alma, puseram sua roupa de cachorro sobre a alma nua, e a puseram num corpo, esse corpo. Sorrisos me lembram por que sou um cachorro, sorrisos me lembram por que minha alma de cachorro é alegre, sorrisos me lembram porque não sou um gato. Sorrisos me lembram por que busco pelo silencio. Gosto de sons. Gosto de cores. Gosto de sorrisos. Gosto de silencio. sou um cachorro.