Todas as coisas, todas as formas, todos os sons.

Todas as coisas, todas as formas, todos os sons.

quinta-feira, setembro 16

A Ultima Foto.

Sai. Volta. Grita. Espanca. Saliva. Morre. Sai. Volta. Continua nisso por toda a noite. Os olhos vermelhos, as entranhas fervendo, os nervos suplicando por algo. Para. Senta na escada. Olha tudo em volta, nada ali lhe pertence. É dos outros, foi posto ali. De ninguém. Chora. Grita. Para. Vai na cozinha, apoia-se  na mesa, lugar de decisões, onde relembra tudo passado ali, umas tardes e algumas noites. Para. Volta as noites frias onde quis um cobertor. Nos dias quentes, onde quis despir-se. Nas luzes diferentes que acompanhou e fotografou. Não quer um filme, sempre achou a tela sentimental por demais. Filmes sempre são dramatizados da mesma forma, e seus flertes não mereciam tal titulo "Infortúnios Dramatizados". Não, aquelas coisas mereciam estar mais próximas da arte, do homem, deveriam ser Seja ao invés de Ação. Fotografou. Sem edição, como elas eram, como deveriam ser. Muitas coisas são assim, sem edição, puras e nuas como nos vem a retina, como sempre nos vem. Organizou o álbum. Tentou. Pane. Acontece. Tentar organizar tudo, e de repente Puf, o sistema falha, você não é nada alem de um técnico de fotografias tentando reorganiza-las naquele maldito álbum. Maldito. Como ele me parece maldito depois de organizado. Todas aquelas fotos, montadas ali, sem plastica. Pensou em como tudo acontece, todos aquelas fotos, tiradas sem a consciência do depois. Retratos instantâneos, sem consciência, é assim que acontece, você vive, os momentos fotografados, como se fossem reais, como se o ar novamente estivesse ali presente, e eles voltam a ser o que foram, voltam a ser intoleráveis. Assim é a vida, momentos fotografados, sem que se pense no álbum futuro, no momento futuro após a fotos, que organizadas no álbum, o tornaria, junto com tudo, maldito. Maldito ele. Maldito nós. Maldito de todas as formas: naturais, emocionais, estáveis, estéticas... Miserável. Nós. Los Misérables. Que arte...Que interpretações... Que musicas. Aquela arte, jamais encontrada novamente em qualquer outro palco, perdida nas costinas do palco, encontrada apenas nas mentes bêbadas ainda presentes no ar impuro e impróprio. Depois deles, nenhum pó-de-arroz foi usado como deveria. Nenhum Pierrot chorou como ele havia chorado. Vive. Chora. Aplaude. Sorri. Corre. Banheiro. Liga a torneira, apoia-se na pia que já não pode com todo aquele peso. Pega água, molha sua face, suja e vagabunda. Imundo. Não pode se olhar, não suporta. A água posta no rosto impede um ultimo vislumbre do homem físico e bárbaro a frente do espelho já que já não sobra mais nada depois da água. Sai. Volta. Corre. Para. Cria. Sobre. Corre como nunca antes havia conseguido. Sem velocidade, apenas com sangue, mostrando a si mesmo que é capaz de algo. Chuva. Parece claro tudo no escuro, ele, claro tudo. Atordoa-se, o que lhe parece natural , põe o álbum de lado, afinal ele é um miserável. Ele quer a si, apenas a ele mesmo, no mais nu que já esteve. Sai. Volta. Fica. Faz. Sangue. Chega. Click.

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